O MERCADO DE TELECOMUNICAÇÕES
EM PORTUGAL
O ano de 2000 foi o marco
no início da liberalização
do serviço fixo de telefone, com
a atribuição de licenças
de operador fixo por parte do regulador
nacional (ICP). Passamos de um mercado onde
a Portugal Telecom operava em monopólio
para um mercado concorrencial onde os novos
operadores podem chegar aos seus clientes
através de infra-estruturas próprias
ou através da selecção
de operador no tráfego de longa distancia
nacional e internacional.
A pre-selecção
automática do operador passou a ser
possível na sequência da transferencia
da propriedade do trafego para os operadores
fixos (introduzindo a portabilidade do número),
para os tráfegos de longa distancia,
para o fixo móvel, e mais recentemente
para o móvel-movel. No inicio de 2001
o acesso indirecto foi alargado às
comunicações locais e regionais,
embora houvesse alguma lentidão na
penetração do sector.
Em 2001 o sector
das telecomunicações continuo
a ser um sector muito activo em Portugal,
com fortes investimentos vindos do exterior
assim como dos maiores grupos nacionais, com
receitas globais da ordem dos 1,8 mil milhões
de contos (9 mil milhões de euros)
no final de 2001, o que representa qualquer
coisa como 9,1% do PIB nacional, se este registar
um crescimento anual de 2% (a média
das previsões do Ministério
das Finanças). As telecomunicações
deverão continuar a representar a grande
fatia - com 1,32 milhões de contos
(6,5 mil milhões de euros) de receitas
de serviços -, seguidas das Tecnologias
de Informação, com quase 361
milhões (1,8 mil milhões), e
dos Correios, com 124 milhões (618,5
milhões). Para 2002, as perspectivas
apontam para ritmos de crescimento similares,
com o mercado a movimentar valores de 2,1
mil milhões de contos (10,6 mil milhões
de euros), ou seja, quase 9% do PIB (de acordo
com os mesmos critérios de crescimento).
O maior acontecimento em 2001
no mercado das telecoms em Portugal foi o
arranque da plataforma de televisão
digital terrestre (TDT) e pelo preparar das
redes móveis de terceira geração,
adiadas por um ano. Serão mais dois
passos fundamentais na massificação
do acesso à Internet e na construção
da Sociedade da Informação em
Portugal.
2001 foi também o ano
das consolidações. Fecharam
projectos que se assumiam como globais, como
o da Finantel.com e o da Maxitel. Outros debatem-se
com os efeitos do colapso da nova economia,
como a ParaRede. Houve investimentos que foram
encerrados, outros que ficaram em stand-by
e outros que nem passaram do papel. Há
grandes grupos que se debatem com problemas
financeiros ou estão em processo de
forte emagrecimento para responder à
conjuntura. É dado como certo que no
mercado nacional de telecomunicações
só deverão caber um ou dois
projectos de âmbito global concorrentes
da incumbente PT.
O papel e a importância
crescente do regulador das comunicações
marcou também 2001. Num cenário
liberalizado, a conclusão que se pode
tirar é que o ICP é cada vez
mais imprescindível para garantir verdadeiras
condições concorrenciais de
mercado e a sobrevivência dos novos
projectos. Com a sua eventual transformação
num regulador da convergência em análise,
prepara-se para ver aumentados os seus poderes
e para analisar a venda da rede básica
de telecomunicações, ainda nas
mãos do Estado, à operadora
histórica.
Em tempos de crise, aposta-se
em força na utilização
de novas tecnologias para optimizar processos
de negócio, reduzir custos e aumentar
a competitividade. É com isso que conta
o sector das TI em Portugal. Prevêem-se
para 2002 e anos seguintes fortes investimentos
de base tecnológica, tanto em software
como em serviços. Também a indústria
de fornecedores de telecomunicações
está atenta e activa. Todas as gigantes
mundiais têm subsidiárias no
mercado nacional e estão de olhos postos
nos contratos para as redes móveis
de terceira geração, para além
das redes de cabo, da TDT e do ADSL.
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Os
Media em Portugal
- ICS Instituto da Comunicação
Social 2002 |
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O sector da comunicação
social em Portugal viveu notáveis transformações,
sobretudo nos últimos 20 anos. Estas
alterações tornaram-se visíveis,
em primeiro lugar, no plano de mercado. A
reprivatização dos meios, na
década de 80, foi mais tarde orientada
para a constituição de conglomerados
mais ou menos fortes, através de operações
de aquisição, parceria e fusão.
No contexto destas
movimentações, a televisão
veio a evidenciar-se como o sector comercialmente
mais interessante no conjunto dos media. A
abertura do espectro aos operadores privados,
contemplada na Lei da Televisão de
1990, traduziu-se no fim do monopólio
estatal do mercado televisivo e no aparecimento
de duas novas estações comerciais,
a SIC (1992) e a TVI (1993). Ao licenciamento
de dois novos canais generalistas privados
sucedeu-se, em 1994, a entrada no mercado
dos operadores de cabo, primeiro com a TV
Cabo, hoje integrada na holding PT Multimédia,
do grupo Portugal Telecom, e, mais tarde,
com as empresas Bragatel, Cabovisão,
Pluricanal, TVTEL Grande Porte e Univertel.
No terceiro trimestre de 2001, segundo dados
do ICP-ANACOM, 59 por cento de alojamentos
portugueses estavam "cablados",
enquanto o universo de clientes das emissões
por cabo e satélite ascendia a mais
de um milhão de assinantes em Portugal.
É ainda na década de 90 que
os operadores televisivos expandem as suas
emissões além fronteiras, com
a RTP Internacional (1992), a RTP África
(1998) e a SIC Internacional (2000), distribuídas
via satélite e cabo.
O horizonte imediato
do sector da televisão em Portugal
aponta para a migração da transmissão
analógica para a digital, processo
que culminará, provavelmente dentro
de uma década, no switchover. A TV
Cabo Interactiva, empresa integrada na holding
TV Cabo Portugal, lançou, em Junho
de 2001, uma plataforma de televisão
digital interactiva por cabo, que disponibiliza
uma rede de serviços na área
da programação, informação,
comércio electrónico, home-banking,
correio electrónico e acesso à
Internet. No âmbito da adopção
no país da norma europeia DVB-T (Digital
Terrestrial Television), o Governo atribuiu,
em Agosto de 2001, uma licença para
o estabelecimento e exploração
de uma plataforma de televisão digital
terrestre ao consórcio PTDP - Plataforma
de Televisão Digital Portuguesa, S.A.,
que congrega RTP, SIC e grupo SGS, e cuja
exploração comercial deverá
ter início até 31 de Agosto
de 2002. Especialmente no plano dos serviços,
a adopção da TDT far-se-á
acompanhar por um aumento da oferta de conteúdos,
sob a forma de novos canais de televisão,
em aberto ou codificados, generalistas ou
temáticos, e de novos serviços
audiovisuais e multimédia. Os interesses
dos vários operadores generalistas
cruzam-se cada vez mais com os dos operadores
de outras plataformas. Desta intersecção
nasceram canais como SIC Notícias,
SIC Radical, SIC Gold, Sport TV ou NTV, mas
os grupos deverão continuar a desenvolver
esta tendência, uma vez que ultimam
o lançamento de outros canais para
distribuição em multiplataforma.
TOP
Por conseguinte,
a liberalização do mercado televisivo
português veio a configurar um ambiente
de forte concorrência, acentuada pela
adopção de novas técnicas
de marketing e de programação.
A este dinamismo do mercado corresponderam
mutações profundas operadas
em sede das estratégias empresariais
no sector dos media, plasmadas na criação
de holdings estruturalmente complexas, nas
quais não será difícil
encontrar a presença de grupos do sector
financeiro ou de empresas estrangeiras. Reciprocamente,
os grupos nacionais procuraram consolidar
as suas participações em conglomerados
estrangeiros, indicando claramente uma ambição
de internacionalização, como
sucede, por exemplo, na aquisição
de 10 por cento da espanhola Net TV, envolvida
no negócio da DVB-T, por parte da Soincom,
propriedade da holding Impresa.
Os grupos de media
aperceberam-se igualmente do valor estratégico
que os conteúdos assumem num contexto
de acelerada evolução das redes
tecnológicas. Neste âmbito, os
três operadores televisivos hertzianos
e o Ministério da Cultura celebraram
entre si protocolos que encerram uma obrigação
de financiamento conjunto de obras cinematográficas
para televisão, produzidas e realizadas
por produtores independentes. Em Janeiro de
2001, a Media Capital anunciou a aquisição
de 45 por cento da produtora NBP, encarada
como um "investimento estratégico",
no pressuposto de que a aliança entre
broadcasting e produção se reveste
de grande potencial de desenvolvimento, tanto
no mercado interno como externo. Este alargamento
revela a apropriação das tendências
internacionais, afirmadas em operações
envolvendo empresas fortemente implantadas
como a Vivendi Universal, o Grupo Kirch ou
a News Corporation.
Os produtos de
ficção destinados fundamentalmente
a alimentar as programações
televisivas não são os únicos
a atrair os investimentos dos grandes grupos,
cada vez mais interessados em adquirir a titularidade
de direitos de conteúdos de alto valor,
como sejam as produções cinematográficas
e os jogos desportivos. O Sport TV, com participações
da RTP, PPTV e TV Cabo, foi o primeiro canal
temático desportivo nacional. Através
de uma das suas participadas, a Media Capital
detém uma parcela de 35 por cento do
capital da SAD de um clube desportivo, o União
de Leiria. A concorrência entre os operadores
televisivos nacionais para adquirir os direitos
de transmissão dos conteúdos
desportivos reflecte as abordagens internacionais
do negócio. A título exemplificativo,
para a gestão destes direitos, o grupo
Kirch Media criou, em 2000, a holding Kirch
Sport, que nasceu da fusão entre três
empresas internacionais de marketing desportivo.
Em Janeiro de 2001, a British Sky Broadcasting
celebrou um acordo com a Formula One Management
para comercialização dos direitos
de cobertura das corridas de Fórmula
1 através da televisão interactiva
em regime de "pay-per-view".
TOP
Obviamente, as
opções estratégicas dos
grupos nacionais de comunicação
social no sentido de investir e manter interesses
nos chamados media tradicionais esbarraram,
num curto lapso de tempo, na emergência
e crescente universalização
dos novos media. A Internet, designadamente,
veio a constituir-se como pedra de toque para
o repensamento das fronteiras entre os vários
media e como estímulo para o redimensionamento
das ofertas de produtos e serviços
das empresas de comunicação.
Por exemplo, recentemente, a BBC decidiu agregar
na sua página todos serviços
de Internet (BBC Online), televisão
interactiva (BBC Interactive) e teletexto
(BBC Text), sob a marca BBCi, com o objectivo
de ganhar visibilidade como grande conteúdo
interactivo, susceptível de distribuição
em multiplataforma. Esta é uma preocupação
dos grupos nacionais, animados com as perspectivas
de negócio da TV interactiva e do UMTS.
Portais como o SIConline, rtp.pt ou iol.pt,
onde está alojada a página da
TVI, disponibilizam o acesso às emissões
televisivas, facilitado com a maior largura
de banda, mas, além destes serviços,
dão acesso a zonas de informação,
entretenimento e comércio electrónico.
TOP
De um outro ponto
de vista, no final de 2001, assistiu-se ao
lançamento em Portugal do portal multi-acesso
Vizzavi, accionado pelo Vizzavi Europe, grupo
que resultou de uma "joint venture"
entre o operador de telecomunicações
Vodafone e a Vivendi. O portal disponibiliza
conteúdos e serviços globais
através de vários terminais,
generalizando o conceito de que se pode aceder
à Internet desde o computador, do telemóvel
ou da televisão. Aliás, uma
das capacidades da televisão digital
interactiva - e, no futuro, da televisão
digital terrestre por via hertziana - consiste
no fornecimento de acesso à Internet
e a outros serviços interactivos.
O esbatimento das fronteiras entre os vários
meios torna-se igualmente evidente na rádio
e na imprensa. As emissões dos operadores
radiofónicos nacionais - RDP, Rádio
Renascença e Rádio Comercial
- estão disponíveis online,
bem como as dos operadores regionais TSF e
Nostalgia e, a breve trecho, as cerca de 300
rádios locais. A exemplo dos outros
meios de comunicação, o futuro
da rádio será digital, no sentido
em que se transfigurará numa plataforma
multimédia potenciadora de múltiplos
serviços. O T-DAB (Digital Audio Broadcasting),
que habita o espectro radioeléctrico
português desde 1998, representa a evolução
natural do sistema convencional de radiodifusão
em FM.
A reestruturação
operada ao nível das empresas de media
começou a denotar mais recentemente
a tendência para consubstanciar o processo
de convergência entre media, telecomunicações
e tecnologias da informação,
desde o momento em que empresas de telecomunicações
passaram a olhar com outro interesse para
os ditos produtores de conteúdos. A
remodelação profunda no seio
do Grupo PT, caracterizada pela segmentação
empresarial por áreas de negócios,
é em tudo semelhante ao percurso seguido
pela congénere espanhola Telefónica,
hoje um operador global nos mercados das telecomunicações,
Internet e meios de comunicação.
Numa perspectiva estrutural, a Telefónica
S.A. assume-se como sociedade matriz e dirigente
do grupo, da qual dependem directamente dez
empresas filiais, entre as quais a Admira
(ex-Telefónica Media), centrada na
criação e distribuição
de conteúdos audiovisuais nos media
tradicionais e em multiplataforma. O grupo
detém uma posição forte
na área dos conteúdos de entretenimento,
através do controlo da holandesa Endemol
que, em Portugal, é responsável
pela produção do reality show
Big Brother e de diversas séries de
ficção e novelas.
O ex-grupo Luís
Silva lidera os sectores da distribuição
e exibição cinematográfica
e videográfica e, no campo dos media,
controla vários jornais e a rádio
TSF. Sobretudo após a aquisição
do capital da Lusomundo, em finais de 2000,
a PT assumiu a sua intenção
de se tornar não apenas um grupo vertical
mas um verdadeiro player da convergência.